…Ele se levantou, deitou no meu lado na minha cama de solteiro e me beijou.
Um beijo urgente, demorado, intenso.
Os dois na estreita cama, mas não precisávamos de mais espaço. Estávamos exatamente onde e como gostaríamos de estar.
No chão, as roupas largadas. Na cama, nossos corpos nus e a descoberta um do outro.
Aquela pele alva que a cada aperto um pouco mais forte ficava vermelha me deixava ainda mais excitado. Os cabelos negros totalmente bagunçados por minhas mãos. Sua boca que passeava pelo meu corpo e me levava às nuvens por me proporcionar tamanho prazer.
O que me intrigava era que não tínhamos tido aquele papo chato do ‘curte o quê?’ tão comum na internet. Estávamos ali e um apenas esperava o outro agir para acompanhar. Não precisamos pré-estabelecer nada. Tudo aconteceu de forma natural.
No pós-gozo, deitados na cama e olhando pro teto, um silêncio no quarto. Em minha mente, apenas uma pergunta:
E agora?
Ele puxou um papo casual, vestiu sua cueca, se levantou, abriu a janela e ficou olhando pra rua. Ele falava feito uma metralhadora giratória, mas o que tínhamos feito não era o assunto em pauta.
Resolvi dar o tempo dele e fiquei deitado na cama, coberto por um lençol, olhando pro teto e fingindo prestar atenção ao que ele dizia.
Foi então que ele ficou quieto. Voltou-se e ainda me lembro da sua imagem: a cueca branca no corpo todo certinho naquele quarto à meia luz.
Veio até mim e me beijou novamente. E tudo recomeçou.
A noite (e o dia seguinte) foram frenéticos. Transamos várias vezes e em cada uma das vezes o prazer era maior, mais intenso.
No domingo à tarde, depois do almoço, ele me disse que tinha de ir embora. As despedidas de praxe na minha casa e o acompanhei até a rodoviária. No caminho, os dois em silêncio, até que ele puxou o papo:
-Cara, foi muito bom. –ele disse.
-Eu também achei. Mas, tenho de perguntar… Como ficamos agora? –eu questionei.
-Acho que como estamos. Somos amigos. Ou melhor… Que tal sermos sócios? –ele mandou.
-Sócios? Como assim?
-Sócios. Amigos que tem um segredo e uma sociedade. Me amarrei nessa idéia. –ele disse sorrindo.
Deixei-o no ônibus e ele fez uma última recomendação:
-Não vai contar pra ninguém, né?
Claro que disse que não contaria.
O ônibus dele foi embora e eu pra casa do meu melhor amigo, o que havia me falado sobre ele, meses antes, dizendo que era o meu número.
Contei tudo, com detalhes sórdidos pro meu amigo que ficou sem acreditar no que eu tinha dito.
-Você é louco, Autor! Totalmente louco! Quer dizer que o D., com aquela carinha, curte? –ele ficava repetindo.
A semana passou e não consegui falar com ele. Não aparecia no msn, não atendia aos telefonemas. Chá de sumiço.
Apesar de ter achado tudo excelente, já estava desencanando quando ele surgiu novamente, quase um mês depois. Disse que precisou de um tempo pra acertar as coisas na cabeça dele, mas que agora já estava tudo certo e queria me ver de novo. Acabei indo pra cidade dele e tudo se repetiu.
E entrei num ciclo meio confuso, que funcionava mais ou menos assim: ele tinha tesão e me ligava, a gente se encontrava, a gente transava, ele sumia.
Até que o mais improvável, pelo menos para mim, aconteceu: eu estava apaixonado por ele.
Fiquei desesperado, pois nunca havia me apaixonado por um homem antes e ele não era a pessoa mais indicada pra ser minha primeira paixão gay.
Só pra terem uma idéia da complexidade da situação: ele sozinho em casa num fim de semana, dei meu jeito e fui pra cidade dele. Tudo perfeito, tudo ótimo, o sexo cada vez melhor. Até que uma hora, depois do sexo, ele se senta na beira da cama e fica quieto lá. Eu, preguiçoso por natureza fiquei na minha, deitado. Quando ouvi soluços. Ele chorava quieto e murmurava:
-Eu não posso gostar disso! Eu não posso gostar disso!
E essa situação durou 8 meses.
Até que num dia fui surpreendido por ele, depois de um fim de semana perfeito juntos, na hora em que nos despedíamos:
-Cara, essa foi a última vez. Tô meio que gostando de uma garota aí e vamos ser apenas amigos a partir de agora. A sociedade acabou. –ele disse, meio sem graça.
-Tudo bem. –eu disse e fui embora.
E no caminho, chorei feito uma criança.
Doeu, eu corri atrás, disse que tava apaixonado e ele me ignorou um bom tempo.
Até que teve tesão de novo e me procurou. E depois me ignorou. E então voltou a me procurar.
Entrei numa relação doentia, em que eu era totalmente subserviente ao tesão dele. E ficava feliz com as migalhas, com o pouco que ele me dava.
Até que resolvi mandá-lo se fuder. Sem mim!
Carnaval, praia e, coincidentemente ele me liga dizendo que estava na mesma cidade que eu (coincidência o caralho! Meu amigo me disse depois que ele ligou perguntando onde eu passaria o carnaval). Eu estava na minha pior fase, deprimido, sem motivação pra porra nenhuma, largado na areia quando o telefone tocou e vi que era ele perguntando onde eu estava para logo em seguida aparecer ao meu lado e me chamar pra conhecer o apartamento onde ele estava hospedado, já que todos estavam na praia naquela hora.
Um amigo fez a maldita e mandou a sugestão pra mim:
-Vai, larga de ser bobo. Come ele, goza antes, deixa ele na mão e vai embora.
E foi o que eu fiz. E ao sair disse que a sociedade realmente tinha acabado e que era pra ele me deixar em paz.
Por um tempo ele deixou, até que passou a me perseguir. Ligar e não falar nada. Mandar emails dizendo que tava com saudade. Aparecer do nada me chamando pra tomar um chopp.
E eu, cada vez mais seco com ele. Mas sofrendo, pois tudo que eu queria era ceder, apesar de saber que tudo voltaria a ser do jeito dele, da forma que ele queria.
Até que no inicio desse ano eu conheci o meu atual namorado. O primeiro homem que estou namorando e que surgiu feito um furacão na minha vida. Não é bem resolvido, não é a pessoa mais simples de se entender, mas é muito mais fácil de lidar do que o D.
E eu me dei conta de que podia gostar de outra pessoa. E de que alguém poderia gostar de mim.
Assim, quando D. me ligou um dia, quando já estava namorando, eu atendi e disse:
-Estou namorando.
-Que legal! Adoro você namorando. Fica ainda mais interessante. –ele disse.
-Namorando um homem. E feliz! –mandei na lata.
- …
-Isso mesmo que você ouviu. Um homem! –enfatizei.
-Você me decepcionou. Nunca imaginei que viraria um viadinho desses… Se bem que essa história é interessante. Que dia vamos colocar chifres nele? –ele insistiu.
E eu desliguei o telefone.
Bloqueei e excluí do msn.
E passei a não atender nenhum telefonema com DDD 32 que aparecesse no meu celular.
Até que dias atrás chegou o tal email do início dessa história.
Dá pra me desbloquear no msn.
Preciso falar com vc.
D.
Contei pro namorado e ele disse:
-Mas não vai desbloquear mesmo! Mas pode responder ao email dizendo pra ele falar o que quer por email, pq também fiquei curioso.
Foi o que fiz.
A resposta do email?
Nada demais.
Apenas estou com saudade da nossa amizade, dos velhos tempos.
Estou querendo marcar de ir na sua cidade, rever seus pais, te dar um abraço.
Pode ser?
D.
Saudade?
Sei…
Hoje me sinto aliviado. Mesmo.
Porque tenho a plena consciência de que, pelo menos para mim, essa história é assunto encerrado.
Me traz ainda boas recordações (e outras tantas nem tão boas, que me deixam puto de raiva), mas que ficam somente na lembrança de uma história que eu, definitivamente, não quero reviver.