“A língua, a saliva, os dentes
Meus olhos estão fechados
A língua, a saliva, os dentes
Meus lábios estão abertos
Agora meus olhos abriram
Meus olhos molharam
Agora seus olhos abriram
Seus olhos me olharam…”
O Beijo (Kid Abelha)
Sentado no ônibus, distraído, olhando as pessoas nas ruas.
Vejo um casalzinho jovem, mochila nas costas, aos beijos, encostados num muro.
O ônibus segue o caminho, mas sei lá porque, a cena se mantém na minha cabeça.
Não sou nenhum voyeur, mas a cena me faz viajar na minha própria história.
Mais especificamente relembro meu primeiro beijo.
Alguns momentos de nossas vidas nos marcam de certa forma, que eventualmente nos recordamos deles. Principalmente momentos que acabam se tornando tão especiais.
Meu primeiro beijo aconteceu quando eu tinha 14 anos.
E, aos 14 anos, eu não pensava muito em meninos. Sei lá, na verdade nem pensava em meninas também. Era um garoto apenas.
Adolescente é uma coisa boba demais, definitivamente.
Eu via os casais na TV, nos cinemas, nos livros e via beijos em todos os lugares. Naquela época parecia que o todo mundo beijava, menos eu.
E vivia a me perguntar como seria o meu primeiro beijo. E, mais insistentemente, quando aconteceria.
E aconteceu da forma mais ridícula possível: eu em casa, num dia à tarde, quando uma vizinha chegou e perguntou se eu queria ‘ficar’ com a Alessandra.
Heim, como assim? Não estou entendendo!!!
Eu era apaixonado pela Alessandra, a minha vizinha de frente. E ali, do nada, a outra vizinha perguntando se eu gostaria de ficar com ela.
Nem lembro direito o que respondi, só lembro que gaguejei que sim.
Quando, que dia, que horas?
Tudo combinado para mais tarde no mesmo dia, comecei os preparativos.
Corri pro meu quarto, escolhi a melhor roupa, escovei os dentes, até me perfumei.
De tardezinha, no horário de sempre, estava na rua, com os vizinhos, brincando e jogando conversa fora. Foi quando elas apareceram e fomos todos (sim, umas seis pessoas!!!) pra uma praça próxima a minha casa.
Chegando lá que vi como tudo havia sido armado: éramos três casaizinhos de adolescentes bobos, que só queriam beijar.
Os outros dois casais logo se agarraram e sobramos Alessandra e eu, em pé, olhando um pra cara do outro.
Sem saber o que fazer, falei:
Vamos lá, né?
E aconteceu o tal do beijo.
Opinião sincera?
Foi horrível.
Não sabia o que fazer com as mãos, achei muito esquisito outra língua dentro da minha boca e, bati dentes pelo menos umas duas vezes. Eu só queria que aquilo terminasse logo pra eu voltar logo pra minha casa e amaldiçoar o maldito primeiro beijo.
Acabou, eu respirei fundo e dei tchau pra menina.
Alessandra continuou sendo minha vizinha por algum tempo, até que se mudou pra outra cidade. A paixão antiga virou amizade e até hoje mantemos certo contato.
Mas, naquele dia, no meu quarto, prometi a mim mesmo que nunca mais beijaria na minha vida.
Óbvio que não cumpri essa promessa.
Voltei ao presente, sentado no ônibus e me peguei quase gargalhando ao lembrar dessa situação que podia ter sido traumatizante.
E tentei me lembrar do meu primeiro beijo num homem. Lembrei! E, assim como o meu primeiro ‘primeiro’ beijo, não foi nada bom.
Mas descobri que a prática é a melhor professora e que beijar é uma delícia, quando se sabe o que está fazendo e se está com uma pessoa especial. Ainda bem que sou insistente! Pois hoje sei o quão gostosa é a sensação de sentir outra boca junto à minha!