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    Chifres

    março 30th, 2009

    corno“Você é muito fogosa
    Tão bonita e carinhosa
    Do jeito que eu sempre quis
    Minha coisinha gostosa
    Dá aos pobres, é bondosa
    Sou corno mas sou feliz…
    Bois Don’t Cry
    (Mamonas Assassinas)

    Marco Antônio era corno. Sabia disso e não se importava.
    Adorava aquela vida e gostava do status que a condição lhe oferecia.

    Na verdade, nem ele entendia muito bem aquele prazer mórbido.  Só sabia que gostava e pronto.

    Quando conheceu Adelaide, todos diziam que ela não prestava.  Mas ela era tão linda, tão simpática. Era óbvio que gostava dele.  O seu carro importado e sua conta bancária eram apenas detalhes.  

    Namoraram, noivaram e casaram num período de dois meses.  Pra família era golpe.  Pra ele, amor.

    O grande golpe (ou a grande surpresa, ele gostava de pensar) aconteceu já durante a lua-de-mel. Encontraram-se com Alfredinho, grande amigo de infância de Marco Antônio, em Aspen.  O entrosamento entre Alfredinho e Adelaide era visível.  E Marco Antônio ficou muito feliz com isso.  Então, no segundo dia, quando Marco Antônio preparava-se para esquiar, Adelaide alegou indisposição.  Mas insistiu que o marido deveria aproveitar o dia.  

    Ele foi, mas preocupado com Adelaide, voltou mais cedo para o hotel.  Foi para o quarto, abriu a porta em silêncio para não acordá-la, caso estivesse dormindo, e foi então que estacou.  Ouviu gemidos.  Chegou devagar até a porta do quarto e, escondido, ficou observando a cena. Alfredinho e Adelaide, nus, fazendo as mais variadas acrobacias sexuais na cama. 

    Mas, ao invés de raiva, Marco Antônio ficou excitado. Ficou observando Adelaide com Alfredinho e adorava o que via. Ficou ali, masturbando-se, enquanto sua esposa e seu amigo de infância se divertiam.  

    Depois, retirou-se do quarto com um sorriso no rosto e voltou a esquiar.  E como achou o dia mais bonito, mais feliz…

    Daquele dia em diante, Marco Antônio sempre levava seus amigos para visitá-los.  Fazia questão de companhias masculinas para alegrar sua esposa.  
    Adelaide adorava os amigos de Marco Antônio, os presentes que ganhava, os mil amantes que tinha e achava sinceramente que o marido de nada desconfiava. Era um bobo distraído que nunca iria descobrir suas aventuras.
    Mas Marco Antônio se fazia de bobo. Era ele quem gostava da situação, era ele quem tudo controlava, pois
    adorava observar sua esposa com outros.  Num determinado fim de semana fez questão que Adelaide viajasse sozinha com uma amiga e instalou câmeras ocultas em seu quarto e outros cômodos da casa. Tudo para que pudesse observar atentamente cada aventura de Adelaide, cada caso, cada relação sexual de sua mulher com outro homem.

    E ele sabia o que todos comentavam por suas costas. Que ele era idiota e estúpido. O corno, o chifrudo. Mas não se importava. Podiam dizer o que quisessem.  Ele era feliz assim.

    Era corno.
    Com muito orgulho! Com muito amor!


    Na Beira do Abismo

    março 27th, 2009

    icanfly“I believe I can fly
    I believe I can touch the sky
    I think about it every night and day
    Spread my wings and fly away
    I believe I can soar
    I see me running
    Through that open door

    I believe I can fly…”
    I Believe I Can Fly (R. Keller)

    Já compararam o ato de apaixonar-se com jogar-se de um abismo: você sabe que a queda é dolorosa, mas a sensação de pular, o frio na barriga, o vento no rosto, o sentir-se vivo, inteiro, faz tal loucura valer pena.
    Você está sozinho e procura por alguém. Fato: o ser humano não sabe ser sozinho. Procura sua metade, alguém que lhe faça bem, que o complete. Mas nessa busca (que não é fácil, muitos sequer conseguem terminar essa jornada) você acaba se deparando com questões complexas, como ‘O que eu realmente quero?’.
    Afinal, se todo mundo busca por alguém, por que tantas pessoas sozinhas ao nosso redor? Essas pessoas já não deveriam ter se encontrado?
    Mas vamos supor que você encontrou alguém. E você está naquela situação, empolgado, na beira do abismo, borboletas na barriga (“butterflies, you make me feel like butterflies…”) e tem que se decidir: pulo ou não pulo? O céu azul, o vento no rosto, a liberdade… Parece que uma força te puxa, te chama, diz ‘Pule, seja feliz!’.
    E é nessa hora que você pode escolher. Pois sim, existe um determinado momento em que a gente escolhe se vai ou se fica, se damos a cara à tapa ou se puxamos o freio, se pulamos no abismo ou se damos meia volta.
    A partir daí, sinto lhe informar, é por sua conta e risco.
    E, normalmente, a gente pula. Sem verificar se existe rede de proteção, se temos asas, se sobreviveremos à queda. Pensamos apenas no céu azul, no vento no rosto, nas borboletas na barriga.
    Aquela sensação! Ahhhh, aquela sensação vale tudo!
    Mas, muitas vezes, nos estabacamos no chão. Com força! E ficamos ali, machucados, expostos, desprotegidos…
    E dói. Dói muito. Até mesmo nos esquecemos que sentir aquela dor era um risco que estávamos dispostos a correr.
    E praguejamos, choramos, sofremos. Amaldiçoamos o abismo, o frio na espinha, as borboletas na barriga. Malditas borboletas, infelizes borboletas!
    Juramos que nunca mais, NUNCA MAIS! vamos sofrer daquele jeito. Não vale a pena!
    E juntamos nossos caquinhos, nos remontamos, nos reerguemos. Pois apesar de não nos acharmos capazes, nós sempre sobrevivemos. É nosso instinto, é humano. Podemos nos refazer e ressurgir das cinzas.
    Seguimos nossas vidas. Observamos as pessoas à nossas volta, deixamos que o tempo se encarregue de colocar as coisas no devido lugar.
    Até que num belo dia a lembrança daquela dor ficou pra trás. Estamos refeitos, trilhando o nosso caminho, a vida novamente nos eixos. E então surge um novo alguém que nos convida para um passeio…
    Empolgação, felicidade e, sem nos darmos conta, estamos ali novamente, na beira do abismo, apreciando aquele maravilhoso céu azul, o vento batendo em nosso rosto, o frio na espinha, as borboletas na barriga… Ah, as borboletas na barriga! Que sensação maravilhosa!
    E é nessa hora que você pode escolher.
    E então você pula novamente!
    Afinal, você pode voar!


    Pequeno Histórico da Influência da Internet na Minha Vida Amorosa

    março 25th, 2009

    amorvirtual1

    “Já conheci muita gente
    Gostei de alguns garotos

    Mas depois de você

    Os outros são os outros…

    E só…”

    Os Outros (Kid Abelha)

    A conheci em 2002, logo depois de passar no vestibular.
    Uma sala de bate papo, ambos calouros da mesma universidade.
    Afinidades mil, gostos parecidos. Horas e horas no ICQ.

    Do virtual pro real e uma paixão avassaladora.

    Entretanto (sempre tem um entretanto), ela era noiva.
    Idas e vindas; dor, muita dor. Tempos depois a oportunidade de ficarmos juntos já que o casamento (que procedeu o noivado) não dera certo.

    Perdeu a graça. Vida que segue.

     

    Orkut.
    Irmão de uma amiga de um amigo.

    Cara de pau, adiciono. Ele aceita. Vamos pro MSN. Amigos.

    Tempos depois o assunto sexo e as dúvidas sexuais dele.
    Do virtual pro real. Do monitor pra cama. Das palavras para o sexo.

    E pela primeira vez eu completamente apaixonado por um homem. Que não se aceitava e que apesar do tesão, não ‘podia’ continuar comigo.
    Sofro, sofro, sofro.
    E muito tempo depois, foda-se ele! Eu mereço bem mais!

     

    2008. Sala de bate papo.
    Papo despretencioso e agradável, MSN trocado, algumas conversas, papo no telefone.

    Do virtual pro real e conhecia assim o meu primeiro namorado, que mesmo depois que virou ex-namorado continua sendo um querido, um amigo.

     

    Orkut. Lista de amigos de um cara com quem eu já havia ficado.

    E então eu o vi. Lindo, olhos verdes, jeito de menino, MSN disponível no perfil, nenhuma indicação de que ele era gay.
    Cara de pau, adicionei e cantei na lata. Ele riu da minha audácia, mas não me bloqueou.
    Papos intermináveis, um almoço, uma amizade, um beijo, um namoro. 

    Hoje, sem sombra de dúvida, o amor da minha vida.

     

    Texto originalmente publicado no Mentes Discrepantes, em 15/03/2009, cujo tema da semana era Amores Virtuais.
    O Mentes Discrepantes é um blog escrito por quatro pessoas completamente diferentes entre si que a cada semana falam sobre um assunto específico, escolhido pelos leitores do blog através de uma enquete. Textos inéditos sempre aos domingos e quartas.


    Fragmentos do Cotidiano (13)

    março 23rd, 2009

    privada“A rabada, o tutu, 
    O frango assado

    O jiló e o quiabo
    Prostituta e deputado
    A virtude e o pecado
    Esse governo e o passado
    Vai você que eu ‘tô cansado’
    Tudo vira bosta…”
    Tudo Vira Bosta (Rita Lee)

     

    Eu no trabalho, conversando com um amigo que deu uma passada por lá pra jogar conversa fora, quando o telefone toca.

    Uma cliente me perguntando sobre um determinado produto que eu não tinha certeza de como conseguir. Pedi a ela que esperasse um pouco que ia verificar no sistema, coloquei o telefone em cima da mesa, abri o sistema e continuei conversando com meu amigo.

     

    -Putz, a coisa tá feia. Desde sábado que estou com uma diarréia danada!

     

    Ele deu uma gargalhada e emendou que tinha uma virose na cidade causando o desarranjo.
    Nesse meio tempo o sistema abriu e eu lembrei do telefone. Quando peguei a menina estava morrendo de rir do outro lado da linha da minha diarréia. E ainda completou:

     

    -Você tá vazando também? Eu estou com a mesma diarréia desde o domingo.

     

     

    Audiência que estou movendo contra o Ponto Frio devido a um problema que tive em uma determinada compra.

    O meu advogado? Meu ex-namorado.

    Almoçamos juntos no dia da audiência, colocamos o papo em dia quando, do nada, ele falou:

     

    -Putz, tava com uma saudade de você, MÔ……..ço.

     

    Sabe quando a pessoa fica roxa de vergonha?
    Eu, não agüentei e mandei:

     

    -Ato falho, é?

     

     

    Conversa no MSN com o amigo da onça.

     

    Amigo da onça diz: Sábado é aniversário do Ti, namorado do Luis. Vamos?
    Autor diz: Não sei, tenho que ver com o Namorado.
    Amigo da onça diz: Eu já o convidei. Coloquei o nome e tudo na lista. Queria muito que seu Namorado fosse, por isso estou te chamando.

    Tomar no cu, né?


    Contradições

    março 19th, 2009

    castelodeareia4“Why don’t we break up ?

    There’s nothing left to say

    I’ve got my eyes shut,
    Praying they won’t stray

    And we’re not sexed up

    That’s what makes
    The difference today

    I hope you blow away…”

    Sexed Up (Robbie Williams)

     

    Um beijo longo, intenso, voraz. Faminto, podia-se dizer!

    As pessoas que circulavam em volta, na boate, ficavam sem ar com a cena. 

    Que paixão! -pensavam todos.

    Interromperam o beijo e se olharam nos olhos.

    Felipe e seus olhos azuis profundos, enigmáticos.  Com olhos negros hipnotizantes, Bruno.


    Felipe lembrava-se do motivo de estarem juntos.  

    Se conheceram numa festa, ficaram, trocaram telefones, começaram a namorar. Sua família adorava o jeito de Bruno: brincalhão, extrovertido, simpático.  Ele conquistava tudo e todos, tinha um magnetismo pessoal admirável.  Douglas, seu melhor amigo, não parava de dizer como ele era feliz por ter um cara como Bruno do lado, como o invejava.  

    Mas Felipe sentia asco.  Não aguentava mais aquele cara que um dia o havia feito suspirar. Inventava mentiras para não se verem e a perspectiva de se encontrarem o desanimava. Mas continuava com ele. Não conseguia dizer:
    Chega, acabou!  

    Tinha pena dele, medo da reação.  
    E aqueles beijos, o sexo, nada mais lhe interessava.  Queria acabar logo com aquilo, fazia de tudo para que ele terminasse, mas era em vão.  Ele continuava o mesmo Bruno de sempre, apaixonado.  
    Suas traições eram constantes.  Queria ser pego, que Bruno descobrisse seus casos e terminasse com ele, mas isso nunca acontecia. Felipe se sentia mal, mas tinha de fazer isso.  Chegou ao ponto de traí-lo com o melhor amigo de Bruno, Otávio, na esperança de que este contasse o ocorrido, mas sem resultados.  Conseguiu apenas que Otávio ficasse no seu pé, implorando que repetissem a dose.  O que fazer?  

    Nesse momento, Bruno começou novamente a beijá-lo.

     

    Bruno se encontrava num beco sem saída.  

    Enquanto beijava Felipe, pensava em Douglas.

    Mas estava preso a esse relacionamento, não queria magoá-lo, tinha certeza que Felipe o amava.

    Até pensara em terminar algumas vezes, mas não fora capaz.  Felipe ficaria arrasado, tinha certeza.  Talvez até pensasse em acabar com a vida. O amor doentio de um Felipe desequilibrado, acreditava Bruno.
    E achava que ele começava a desconfiar.  Estava estranho ultimamente.  Perdia-se em seus pensamentos e, muitas vezes, respondia com monossílabos às suas perguntas.  Definitivamente, não podia terminar tudo assim, de uma hora pra outra.  

    Mas estava apaixonado por outro, pelo melhor amigo de Felipe.  Era com Douglas que ele se realizava.  Com Felipe o sexo era automático; com Douglas, prazeroso.  Mas não podia jogar tudo pro alto.  Tinha de manter aquela farsa.  

    Até quando?  Não sabia.

     

    Beijaram-se mais um vez. 

    Felipe pensando em como terminar com Bruno, o namorado que o enojava, que já não lhe despertava nenhum desejo.
    Bruno pensando no beijo de Douglas.