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    Pra Não Dizer Que Não Postei Um Conto

    maio 18th, 2010

    Porque de vez em quando é bom exercitar o meu lado dramaturgo (A-ham, Claudia, senta lá!). Um pequeno conto que, se não fosse publicado aqui, ficaria guardado pra sempre na minha pasta Meus Documentos.

    Aqueles Dias Inesquecíveis…

    Daqueles dias, o que mais ficou na memória foram os tempos passados na Casa da Tia Sônia. Forçando a mente, revivendo momentos, consigo até mesmo sentir odores e sabores daqueles dias inocentes passados no interior, onde as horas se arrastavam e tudo era inocente e juvenil. E Tia Sônia, claro, com seus olhos risonhos e sua frase sempre repetida: Juízo, menino, juízo.

    A pequena propriedade, não um sítio ou um rancho, mas uma casa no meio do campo, com muito espaço à sua volta, ficava no interior e era comum passar dias lá nas minhas férias. Ver e rever os primos, jogar bola no campinho, subir nas árvores e comer fruta direto no pé, nadar livre no rio límpido de águas ora calmas ora traiçoeiras.

    Naquele verão específico, tudo era diferente. O moleque dava lugar ao rapaz, as espinhas brotavam no rosto e os desejos afloravam. A filha da vizinha de Tia Sônia deixara de ser inoportuna e passara a ser atraente. Os primos comentavam sobre as formas adquiridas pela garota e eu apenas ouvia calado. O garoto da cidade grande era o mais bobo dos primos e eu naõ gostaria de ser motivo de chacota. Enquanto todos já tinham aventuras, eu apenas imaginava o que seria viver todas aquelas histórias.

    Numa tarde de calor insuportável fomos todos para o rio de águas geladas. Ponto de encontro de todos  na região, o rio era como se fosse a praia daquelas pessoas. Por obra do destino, ou não, Glorinha estava lá naquele dia. Eu não disse isso antes, não é mesmo? Glorinha era o nome dela. E Glorinha tinha a capacidade de me deixar ainda mais mudo, pois eu sempre gaguejava quando em sua companhia.

    Enquanto todos se divertiam, eu fiquei sentado naquela pedra, pensando na vida, nos afazeres, no que me esperava quando finalmente retornasse à minha vida cotidiana na cidade. E foi assim que ela se aproximou devagar, sem que eu nem mesmo reparasse em sua presença. Quando me dei conta, ela já estava no meu lado, olhando para minha cara perdida e com um ar zombeteiro no rosto.

    Como ela era linda, meu Deus! E como eu era idiota. Não fui sequer capaz de formular uma frase, de me fazer entender. Lembro apenas de falar algo estúpido como ‘que dia quente, não é mesmo?’. Glorinha do meu lado e eu falando do tempo. O que me consola é que eu amadureci e aprendi a ser menos bobo nessas horas. Mas ali, naquele dia, eu fui bobo. O que eu não sabia é que ela tinha um plano.

    Sem dizer nada, Glorinha me puxou pela mão e, quando gaguejei alguma coisa, perguntando para onde estávamos indo, recebi de volta apenas um ‘Psiiiu’. E, claro, a segui. Pelo trilho na mata fomos parar numa campina de árvores esparsas, mas cujas folhas produziam sombras aconchegantes. Subitamente, Glorinha parou em minha frente, jogou os braços em meus ombros e, sem cerimônia, disse: ‘Me beija, vai! Eu sei que você quer!

    Lembrando hoje disso, vejo que não foi nada romântico nem mágico como visualizei naquela época. Lembro-me de repassar a cena dias e dias e de suar muito em cada vez que me recordava do que havia acontecido. Os lábios quentes, a pele macia, os cabelos bagunçados. E eu ali, dando meu primeiro beijo.

    E tão impetuosamente como começou, o beijo acabou. E ficamos ali, olhando um para o outro, sem saber o que fazer. Até que ela, sempre ela, me puxou pelas mãos e voltamos pela trilha até a pedra no rio onde eu fiquei olhando para o nada e ela foi mergulhar com o resto das pessoas.

    Por causa daquele beijo eu me tornei invencível. Fui o melhor no jogo de futebol, ganhei três partidas seguidas de purrinha e contei até mesmo piadas.

    Mas a cara de Tia Sônia e seu olhar de quem sabia o que tinha acontecido me deixou angustiado e, ao mesmo tempo, orgulhoso de mim. Poxa, eu tinha beijado a Glorinha! Na hora de dormir, o beijo de boa noite de sempre e as palavras divertidas da boca de Tia Sônia: Juízo, menino, juízo.

    Hoje, passado tanto tempo, é do olhar divertido de Tia Sônia do que mais tenho saudade. O único beijo em Glorinha se foi, os dias no campo também. Mas o que Tia Sônia representava, seu olhar, seu abraço, sua comida, ah, isso eu nunca vou conseguir esquecer…

    “Quando me sinto assim
    Volto a ter quinze anos
    Começando tudo de novo
    Vou me apanhar sorrindo…”
    15 Anos (Ira!)


    Rotina

    maio 27th, 2009

    porta-1“I should’ve drove all night,
    I would’ve run all the lights
    I was misunderstood
    I stumbled like my words,
    Did the best I could
    Damn! Misunderstood.
    Intentions good!!”
    Misunderstood (Bon Jovi)

    Levantou-se da cama e ficou admirando o outro corpo nu, adormecido sobre os lençóis de algodão. Colocou os óculos, ajeitou o cabelo e pensou:

    -Putaqueopariu! Por que eu sempre me arrependo no dia seguinte de pegar esses jaburus? Maldita cerveja!

    Foi até o banheiro, tomou um banho e só desejava que quando voltasse ao quarto ele já não estivesse mais lá. Mas não, as pessoas não são práticas; pelo contrário, são muito óbvias.

    -A água estava boa, gostosão? Eu queria tomar um banho antes de sair.
    –o outro lhe disse assim retornou ao quarto.
    -Não, está gelada! Não tenho chuveiro elétrico. Melhor você tomar um banho em casa. –ele respondeu, já desejando que aquele estranho, cujo nome já nem mais se lembrava, fosse embora o mais rápido possível.

    O outro fez uma cara de poucos amigos mas mesmo assim se levantou e veio em sua direção com os braços abertos, provavelmente esperando um abraço, do qual ele se desviou sem pestenajar. Sentiu nojo. As pessoas tinham cada idéia! Ele já havia feito sua boa ação, já havia transado com aquela criatura que à noite lhe parecera interessante, mas que agora, na luz do dia, apenas lhe causava repulsa.
    Sem ter muito o que fazer então, o outro se vestiu rapidamente e pegou o caminho da rua, deixando antes, sobre a cômoda, um papel anotado com seu número de telefone.

    -Me liga!
    o outro disse.
    -Sonha com isso!ele pensou.

    Fechou a porta, deitou na cama, olhou para a camisinha usada no chão, para as roupas largadas, para o copo d’água ao lado do vidro de comprimidos. Levantou, pegou um, tomou junto com a água; tinha de agir antes da dor de cabeça voltar.
    E tudo termina exatamente como começou… Um novo dia, uma nova promessa; o mesmo enredo. Ele não tinha jeito, era sempre assim. Será que um dia aprenderia?

    Texto originalmente publicado no Mentes Discrepantes, em 10/05/2009, cujo tema da semana era ‘…e tudo termina exatamente como começou…’.
    Mentes Discrepantes é um blog escrito por quatro pessoas completamente diferentes entre si que a cada semana falam sobre um assunto específico, escolhido pelos leitores do blog através de uma enquete. Textos inéditos sempre aos domingos e quartas.


    O Último Beijo

    maio 18th, 2009

    lastkiss“I lifted her head, she looked at me and said;
    ‘Hold me darling just a little while.’
    I held her close I kissed her – our last kiss,
    I found the love that I knew I had missed.
    Well now she’s gone even though
    I hold her tight,
    I lost my love, my life that night.”
    Last Kiss (Pear Jam)

    Se beijaram longamente.
    Sabiam que seria o último beijo e queriam aproveitá-lo ao máximo.
    E era realmente o beijo perfeito:  um dia de céu azul, sem nenhuma nuvem. Uma tarde de outono, temperatura amena e agradável.  Os pássaros cantando naquela praça que tantos beijos havia presenciado.  E aquela música ao fundo: Last Kiss. Pelo menos esse último beijo deles não era por um motivo tão trágico quanto o da música, mas era também muito doloroso.
    Se conheciam desde a infância.  Crescerem juntos, brincavam desde que se entendiam por gente, estudaram na mesma escola.  Na adolescência, descobriram-se.  O primeiro beijo, o primeiro toque, a primeira transa.  De amigos a ficantes, de ficantes a namorados, de namorados a namorados-amigos.
    Mas agora eles teriam de se separar.  Era o último momento, o último beijo.
    Ele acabara de se formar e havia recebido uma proposta de emprego irrecusável na Espanha.  Seria engenheiro na sede de uma empresa de alimentos.  O pedido de casamento veio logo que soube que havia sido escolhido para o emprego.
    Mas ela não aceitou.  Teve medo de largar a família, sua cidade, sua vida. Preferiu abrir mão do seu grande amor.
    Ele ficou bravo, gritou, xingou.  Achou que tudo havia sido em vão.  Pensou em desistir de tudo, do sonho, só para ficar com ela.  Mas foi convencido pela família a aceitar a proposta.
    Naquela manhã, acordou angustiado.  Seu vôo para Madrid seria no dia seguinte logo cedo e a saudade já era imensa em seu peito.  Ligou pra ela, marcou o encontro.  E estavam ali, na praça, apreciando seus últimos momentos.
    E uma pequena lágrima escorreu pela face deles.
    De quem foi?  Não saberia dizer.
    Talvez fosse dele.  Talvez fosse dela.

    Continho achado numa pasta quase esquecida de Meus Documentos.
    Espero que sirva de distração.
    Boa semana!


    Sonhos

    maio 6th, 2009

    sonhos“Mas não tem revolta, não
    Eu só quero que você se encontre
    Ter saudade até que é bom
    É melhor que caminhar vazio
    A esperança é um dom
    Que eu tenho em mim…”
    Sonhos (Paula Toller)

    Vou te falar, adoro essa música! Ela mexe comigo, com meus sentimentos.
    Peninha, né? Ele era o cara!
    Ah, é Paula Toller cantando agora? Tá na moda essas regravações, eu sei. Mas a versão original era com o Peninha. Mas eu era bem jovem naquela época. Se bem que os clássicos são os clássicos, a gente vai sempre escutar, não importa quando, seja com o Peninha, seja com a Paula Toller. Seja com a Sandy, vai saber!
    Aumenta um pouquinho? 
    Linda, linda, linda música!
    Poxa! Nunca tinha reparado na letra. Tipo, gostava da música, da melodia, cantarolava o refrão, mas nunca tinha reparado na letra. Que linda! 
    Ah, desculpe, eu me emociono. Essa minha fase tá uma merda. Qualquer coisa me faz derramar lágrimas. Mas eu tô bem sim, muito bem. A culpa não é sua, relaxa!
    Te entendo, eu sei que não era o nosso tempo, que você precisava de espaço, sei de tudo isso!
    Você tá certa, eu sei! Se é pra ser, um dia vai ser!
    Olha essa parte, que linda! É o refrão! É igual ela tá falando, né? ‘Amanhã será um outro dia’. Verdade isso! Amanhã é um novo dia…
    Ah, me deixa cantar! Por que você SEMPRE tem de me censurar?
    Você tem que me falar uma coisa? Que coisa?
    Hum… Fala então, to te escutando…
    Se eu quero que você seja feliz? Óbvio que quero, você é a pessoa que mais me fez feliz! ‘Eu só quero que você se encontre!’ E quem sabe um dia tudo não possa voltar a ser como era antes, né?
    O quê? Outra pessoa? Você tem outra pessoa?
    Mas você terminou comigo tem um mês dizendo que tava sem tempo pra se dedicar e agora vem me dizer que tá envolvida com outra pessoa?
    Que porra é essa???
    Calma??? Você vem me pedir calma agora???
    Eu vim aqui todos os dias, esperando uma nova chance, bancando o idiota… E você tá envolvida com outro???
    Você é uma vadia, sabia? FILHADAPUTA! Isso sim!
    Gosta de mim? Gosta de mim coisa nenhuma, sua, sua…
    Ah, quer saber? Me esquece!!! 
    E desliga essa merda de música! Essa letra é ridícula, a melodia é chata, é tudo uma merda!
    Tudo bem, tudo bem, estou indo embora. 
    Ei, não precisa me empurrar! 
    EU NÃO TÔ GRITANDO!
    QUEM VOCÊ PENSA QUE É PRA BATER ESSA PORTA NA MINHA CARA???

    Texto originalmente publicado no Mentes Discrepantes, em 19/04/2009, cujo tema da semana era Ilusões.
    Mentes Discrepantes é um blog escrito por quatro pessoas completamente diferentes entre si que a cada semana falam sobre um assunto específico, escolhido pelos leitores do blog através de uma enquete. Textos inéditos sempre aos domingos e quartas.


    Quadrilha Pós-Moderna

    abril 15th, 2009

    poligamia“Vamos ficar, vamos fazer
    Vocês e eu, eus e você
    Vamos gozar, vamos viver
    Vocês e eu, eus e você…

    Poligamia (Kid Abelha)

     

    Heleninha se depilou, tomou aquele banho demorado, se perfumou e escolheu uma lingerie bem provocante. Enquanto isso, no mesmo banheiro, Augusto fazia a barba.

    -Nervosa, Heleninha?

    -Um pouco só… Mas vai ser bom! Eu acho! Espero, na verdade!

    -Calma, Heleninha! Vai dar tudo certo! Tudo foi acertado.

     

    Suelen e Mario estacionaram o carro e ficaram um bom tempo conversando antes de se encaminharem para dentro do restaurante.

    Haviam repassado seu texto juntos e se julgavam perfeitos.

     

    O jantar foi regado a vinho e a conversa, que começou tímida e formal, já tinha um clima de putaria total.

    Heleninha, sentada ao lado de Augusto, por debaixo da mesa acariciava o pau de Mário com os pés, que não via a hora de terminarem aquela experiência num motel.

    E lá foram eles.

     

    No motel, Heleninha beijava Augusto, que beijava Suelen, que beijava Mario, que beijava Heleninha, que beijava Suelen, que beijava todo mundo.

    Roupas no chão, corpos suados e uma loucura sem fim.

    Extasiados, agradeciam a invenção das salas de bate papo.

     

    Na noite seguinte, em sua cama de casal, Suelen e Mário se acariciavam e o tesão dominava o quarto.

    Mário beijava o pescoço de Suelen, descia para seu seio, seu barriga e continuava descendo…

    E Suelen gemia…

    ‘Augusto… Augusto…’

     

    Na outra casa, Augusto e Heleninha tentavam novas posições.
    Heleninha vestia uma calcinha com consolo e dominava o marido que só pensava em como não conseguira tirar os olhos do pau de Mário na noite anterior…

     

    Na manhã seguinte, vida normal.

    Afinal, nem só de putaria vive a humanidade.

    Será?

     

    Texto originalmente publicado no Mentes Discrepantes, em 29/03/2009, cujo tema da semana era Troca de Casais.
    O Mentes Discrepantes é um blog escrito por quatro pessoas completamente diferentes entre si que a cada semana falam sobre um assunto específico, escolhido pelos leitores do blog através de uma enquete. Textos inéditos sempre aos domingos e quartas.